

Angelique Kidjo e Gilberto Gil

Marisa Monte

Dança Africana (Senegal)

"É engraçado, quando se fala de negros em prol de políticas públicas para empoderamento do negro, se denuncia a falsa democracia racial, se denuncia o genocídio negro, se denuncia que os não-brancos – em especial – os negros são excluídos da cadeia produtiva quando não relegado aos extratos mais baixos da pirâmide social, dizem que o problema só existe na cabeça de negro e do movimento negro.
O Teatro Experimental do Negro nos anos 50 denunciava a invisibilidade do negro na sociedade brasileira.
Os Núcleos de Estudos Afro-brasileiros nas universidades lutam com unhas e dentes para manterem suas pesquisas e bolsistas.
Os projetos e produções envolvendo a discussão étnico-racial e a implementação, por exemplo, da lei federal sobre afrobrasilidade no currículo escolar e a divulgação e aparelhamento técnico e profissional da saúde por conta de doenças como anemia falciforme e tuberculose, não recebem rubricas – as famosas bandeirinhas da verba federal. Em geral, elas vão para eventos e personalidades que sempre tiveram dificuldades com a promoção da igualdade racial e empoderamento do negro. Para a negrada… nada.
E agora temos este Back 2 Black Festival que cobra os olhos da cara (do negro, naturalmente) R$ 60, 80, 130 e 160. É óbvio que é projeto feito por brancos usando os negros, mas que não querem que negros entrem e assistam. E justo na Estação Leopoldina, construída no lombo da negrada, limpa pela negrada, e que está situada na antiga área chamada Pequena África. E para completar tem um camelódromo em frente, altamente inoperante. Pontos de ônibus para municípios periféricos em que os periféricos moram e que não poderão assistir a um projeto desta magnitude que trata de negro e o negro comum não poderá entrar…
Claro que teremos negros lá dentro, fora os que limpam e que falarão ou apresentarão produções, até porque a sociedade brasileira – mesmo com tanto esmero e dedicação – não conseguiu manter todos os negros e mestiços pobres na miserabilidade, sempre houve quem escapasse, e com a política de ação afirmativa, modalidade cotas de acesso ao ensino superior em universidades públicas, temos mais negros intelectualizados, muitos destes por meio de bolsas de estudos externas, e outros tantos que teve a sorte de seus ancestrais terem tido acesso a emprego regular – em geral, serviço público – e conseguiram acumular para que seus rebentos pudessem estudar.
Taí, deveria ter um choque de ordem na cabeça de quem faz um evento excludente destes… Êta …
Mas não é que esqueci de mencionar as bandeirinhas federais que estão bancando esta festa em nome da raça e que a raça não pode assistir!!! E quando o sujeito ou a sujeita faz um projeto ou quer implementar um programa focado no empoderamento das comunidades tradicionais, quilombolas, periféricas, o apoio financeiro do governo federal não sai…
Quando profissionais ou estudantes de comunicação e/outras áreas querem desenvolver um projeto de pesquisa e relacionamento produtivo com países africanos com intercâmbios, em geral, 90% dos casos, estas iniciativas são obstaculizadas até serem abortadas. É danado… É lamentável…
Não é inviabilizar um trabalho desta magnitude, mas é abrir para quem deveria estar aprendendo que fez história, construiu este país, e que sem seus braços, sangue e vida, nada aqui existiria. Não podemos ficar restritos às páginas policiais como aconteceu com o pai de família quase trucidado por seguranças do Carrefour em São Paulo.
Cadê as parcerias com os profissionais de Educação que trabalham com a Lei 10639 em sala de aula que não podem levar seus alunos para um evento como este? Cadê as organizações negras que há anos trabalham, em geral de pires na mão, para comparecerem e dialogarem neste espaço para troca de saberes?
É vergonhoso!!! E o pior, é que é com o meu dinheiro dos impostos, essa não divisão do bolo, essa não participação popular, essa não participação de quem carrega nas costas a dura luta pela promoção da igualdade racial neste país de “nós não somos racistas”.
Para aqueles que, minimamente, se debruçam sobre a questão das relações raciais no Brasil, que não necessariamente acadêmicos, para de pronto perceber que a lógica do evento ainda está imersa em estereótipos. Por exemplo, a colocação dos imensos painéis com o mapa do continente africano abordando aspectos diferenciados foi muito bacana – indicativo de: países colonizadores e colonizados no período escravocrata; periodização das lutas pela independência; demografia etc. Acho que foram seis do teto ao chão. Mas como os painéis só mostravam o continente africano, parecia que ele era um OVNI no planeta, não estava ligado a absolutamente nada: um ponto no nada.
No hall da estação, foram colocados painéis enfileirados que desciam e subiam sincronicamente, muito bonito, ainda mais quando tocavam os acordes iniciais de um hino representativo das lutas africanas. As imagens mesclavam entre imagens de extrema pobreza, vazios demográficos, desequilíbrio entre progresso e áreas dilaceradas pelas guerras e ganância dos usurpadores, e belíssimas imagens de pessoas humanas de bem com sua vida e seu modo de ser, crianças sorrindo, mulheres com seus filhos, ser humano de bem com a natureza e suas tradições. Nós brasileiros pouco conhecemos de nossos antepassados por razões históricas e políticas, pois a escravidão acabou há 120 anos e ainda não conseguimos aprender na escola que antes de serem escravos os africanos tinham seus impérios, e que o Brasil foi construído também com o saber importado destes empreendedores sequestrados, e mais, que o que temos hoje no Brasil é a perpetuação através do racismo institucional do não empoderamento de grupos étnicos (negros e indígenas) a ponto de suas histórias serem apagadas e suas tradições serem vistas como exóticas, surreais, atrasadas, e por aí vai. E aqueles painéis reforçavam este olhar, de distanciamento, de estranheza, de um povo (parece que o continente africano é um só país) que não “progrediu” e que depende deles ‘crescer’ e se ‘desenvolver’ e deixar a ‘preguiça de lado’. Exatamente o mesmo discurso que temos no Brasil com relação aos negros, indígenas e nordestinos moradores (ou não) de áreas periféricas (no RJ, favelas).
Outro aspecto interessante, já que o evento era um grande sanduíche com o negro como recheio: de todo o staff de recepcionistas SOMENTE UMA MULHER NEGRA, todas as outras 99,9% eram BRANCAS, 60% de cabelinho amarelo (de farmácia, é claro). Agora, na limpeza, na segurança, tinha pretinho à rodo.
Exposição de livros em um vagão na gare com uma música gostosa da melhor qualidade lembrando os tempos do Soul Black – DJ Corelo, Dom Filo, Charme, foi show, com uns dançarinos caracterizados com seus belos sapatos plataforma e roupas coloridas.
Detalhe, com aqueles preços nada doces, o banheiro era químico. A água mineral, refrigerante, cerveja – a R$ 4,00 e o tal sanduíche natural a R$ 8,00. Lembrando que foram 9 instituições bancando o trabalho e nenhuma escola carioca pode levar seus alunos !!!
O momento de troca de informações se deu, naquele local, somente no bate-papo inicial, e foi muito bom, apesar de a produção não ter dado para a mediadora Katia Lund uma folha de papel com o nome dos convidados, o nome do evento, a proposta daquele sarau, e muito menos se o trabalho vai ter desdobramento ou não. Pois foi a pergunta feita por quase todos que expunham suas trajetórias de vida. Três músicos e dois cineastas. Uma de Benin, outro do Senegal e Bill (CUFA). O cineasta sul africano e a Kátia Lund. O barato é que o sul africano ficou pasmo com os informes dados por Bill sobre as desigualdades raciais no Brasil. E ele disse que, com todas as dificuldades na África do Sul, há o sistema de cotas por etnias e que a educação é pedra de toque. Lá eles estão buscando promover o empoderamento dos grupos minorizados e excluídos pelo Apartheid.
Não lembra o Brasil ?!?!?!? O senegalês politizado pelo trabalho desenvolvido pela Anistia Internacional usa a música como ferramenta política. A beniense que teve que abandonar a família para se refugiar na França, disse que não adianta a bipolaridade sem o recorte de gênero transversalizando a discussão, porque a identidade da mulher africana é a do marido. Todos ficaram boquiabertos com o que a controvertida imagem que os produtos midiáticos mostram do Brasil e do que viram e ouviram aqui com relação a ‘democracia racial’, inclusive naquele evento, feito por brancos ganhando sobre negros para conhecer os pretinhos africanos e ver o que eles podem ganhar com a diáspora africana.
E no meio disso tudo, os serviçais de sempre, que existem em todos os lugares, com todas as cores."
Esse foi o comentário de uma internauta por essa rede afora que, como tantos que também tiveram a chance de estarem presentes nesse evento (para "privilegiados"), ficaram extremamente decepcionados.
Uma mega produção, muito dinheiro envolvido, dedução de impostos e ingressos carésimos, limitação ao acesso... Divergência.
A questão racial mais uma vez sendo "usada" como produto, que é só o que importa nessa sociedade capitalista em que vivemos.
Eu, por outro lado, pude capturar belas imagens.
E o desejo de que os patrocinadores (Petrobrás, Oi, Ministério da Cultura, Secretaria de Cultura do Rio, Rio Tur, Brasiliatur, Vale, etc) estejam mais empenhados e realmente dispostos a financiar eventos que tragam no próprio nome mais que uma propaganda ou uma estratégia marketeira, mas sim um objetivo.

Youssou N'Dour (Senegal), Marisa Monte e Gil

Jovem Cerebral no vagão da Leopoldina

Som do Senegal

Ministro Minc
volto com novas fotos do evento...
até breve!

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